Libras Básico:

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9º módulo: Aspectos Linguísticos da LIBRAS

VARIAÇÕES LINGÜÍSTICAS

Na maioria do mundo, há, pelo menos, uma língua de sinais usada amplamente na comunidade surda de cada país, diferente daquela da língua falada utilizada na mesma área geográfica. Isto se dá porque essas línguas são independentes das línguas orais, pois foram produzidas dentro das comunidades surdas. A Língua de Sinais Americana (ASL) é diferente da Língua de Sinais Britânica (BSL), que difere, por sua vez, da Língua de Sinais Francesa (LSF).

 

Ex.: NOME

Além disso, dentro de um mesmo país há as variações regionais. A LIBRAS apresenta dialetos regionais, salientando assim, uma vez mais, o seu caráter de língua natural. 9.1.1 VARIAÇÃO REGIONAL: representa as variações de sinais de uma região para outra, no mesmo país.

VARIAÇÃO SOCIAL: refere-se à variações na configuração das mãos e/ou no movimento, não modificando o sentido do sinal.

MUDANÇAS HISTÓRICAS: com o passar do tempo, um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da geração que o utiliza.

ICONICIDADE E ARBITRARIEDADE

A modalidade gestual-visual-espacial pela qual a LIBRAS é produzida e percebida pelos surdos leva, muitas vezes, as pessoas a pensarem que todos os sinais são o “desenho” no ar do referente que representam. É claro que, por decorrência de sua natureza linguística, a realização de um sinal pode ser motivada pelas características do dado da realidade a que se refere, mas isso não é uma regra. A grande maioria dos sinais da LIBRAS são arbitrários, não mantendo relação de semelhança alguma com seu referente.

Vejamos alguns exemplos entre os sinais icônicos e arbitrários.

SINAIS ICÔNICOS

Uma foto é icônica porque reproduz a imagem do referente, isto é, a pessoa ou coisa fotografada. Assim também são alguns sinais da LIBRAS, gestos que fazem alusão à imagem do seu significado.

 

Isso não significa que os sinais icônicos são iguais em todas as línguas. Cada sociedade capta facetas diferentes do mesmo referente, representadas através de seus próprios sinais, convencionalmente, (FERREIRA BRITO, 1993) conforme os exemplos abaixo:

ÁRVORE
LIBRAS- representa o tronco usando o antebraço e a mão aberta, as folhas em movimento. LSC (Língua de Sinais Chinesa) – representa apenas o tronco da árvore com as duas mãos (os dedos, indicador e polegar, ficam abertos e curvos).

SINAIS ARBITRÁRIOS

São aqueles que não mantêm nenhuma semelhança com o dado da realidade que representam. Uma das propriedades básicas de uma língua é a arbitrariedade existente entre significante e referente. Durante muito tempo afirmou-se que as línguas de sinais não eram línguas por serem icônicas, não representando, portanto, conceitos abstratos. Isto não é verdade, pois em língua de sinais tais conceitos também podem ser representados, em toda sua complexidade.

ESTRUTURA GRAMATICAL

ASPECTOS ESTRUTURAIS

A LIBRAS têm sua estrutura gramatical organizada a partir de alguns parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos. Três são seus parâmetros principais ou maiores: a Configuração da(s) mão(s)-(CM), o Movimento – (M) e o Ponto de Articulação – (PA); e outros três constituem seus parâmetros menores: Região de Contato, Orientação da(s) mão(s) e Disposição da(s) mão(s).(FERREIRA BRITO, 1990)

Parâmetros principais Os parâmetros principais são:

a) configuração da mão (CM)
b) ponto de articulação (PA)
c) movimento (M)

a) Configuração da mão (CM): é a forma que a mão assume durante a realização de um sinal. Pelas pesquisas linguísticas, foi comprovado que na LIBRAS existem 43 configurações das mãos (Quadro I), sendo que o alfabeto manual utiliza apenas26 destas para representar as letras. Ex.:


b) Ponto de articulação (PA): é o lugar do corpo onde será realizado o sinal. Ex.:


c) Movimento (M): é o deslocamento da mão no espaço, durante a realização do sinal. Ex.:

Direcionalidade do movimento

a) Unidirecional: movimento em uma direção no espaço, durante a realização de um sinal. Ex.: PROIBIDO, SENTAR, MANDAR.

b) Bidirecional: movimento realizado por uma ou ambas as mãos, em duas direções diferentes. Ex.: PRONTO, JULGAMENTO, GRANDE, COMPRIDO, DISCUTIR, EMPREGADO, PRIMO, TRABALHAR, BRINCAR.

c) Multidirecional: movimentos que exploram várias direções no espaço, durante a realização de um sinal. Ex.: INCOMODAR, PESQUISAR.

Tipos de movimentos

Parâmetros secundários

a) Disposição das mãos: a realização dos sinais na LIBRAS pode ser feito com a mão dominante ou por ambas as mãos. Ex.: BURRO, CALMA, DIFERENTE, SENTAR, SEMPRE, OBRIGADO

b) Orientação das mãos: direção da palma da mão durante a execução do sinal da LIBRAS, para cima, para baixo, para o lado, para a frente, etc. Também pode ocorrer a mudança de orientação durante a execução de um sinal. Ex.: MONTANHA, BAIXO, FRITAR.

c) Região de contato: a mão entra em contato com o corpo, através do: Toque: MEDO, ÔNIBUS, CONHECER. Duplo toque: FAMÍLIA, SURDO, SAÚDE. Risco: OPERAR, JOSÉ (nome bíblico), PESSOA. Deslizamento: CURSO, EDUCADO, LIMPO, GALINHA.

Componentes não manuais

Além desses parâmetros, a LIBRAS conta com uma série de componentes não manuais, como a expressão facial ou o movimento do corpo, que muitas vezes podem definir ou diferenciar significados entre sinais. A expressão facial e corporal podem traduzir alegria, tristeza, raiva, amor, encantamento, etc., dando mais sentido à LIBRAS e, em alguns casos, determinando o significado de um sinal.

Ex.: O dedo indicador em [G] sobre a boca, com a expressão facial calma e serena, significa silêncio; o mesmo sinal usado com um movimento mais rápido e com a expressão de zanga significa uma severa ordem: Cale a boca! A mão aberta, com o movimento lento e com expressão serena, significa calma; o mesmo sinal com movimento brusco e com expressão séria significa pára. Em outros casos, utilizamos a expressão facial e corporal para negar, afirmar, duvidar, questionar, etc.

Sinais faciais: em algumas ocasiões, o sinal convencional é modificado, sendo realizado na face, disfarçadamente. Exemplos: ROUBO, ATO-SEXUAL. 9.3.2 ESTRUTURA SINTÁTICA A LIBRAS não pode ser estudada tendo como base a Língua Portuguesa, porque ela tem gramática diferenciada, independente da língua oral. A ordem dos sinais na construção de um enunciado obedece a regras próprias que refletem a forma de o surdo processar suas ideias, com base em sua percepção visual espacial da realidade. Vejamos alguns exemplos que demonstram exatamente essa independência sintática do português:

Exemplo 1: LIBRAS: EU IR CASA. (verbo direcional) Português : ” Eu irei para casa. ” para – não se usa em LIBRAS, porque está incorporado ao verbo
Exemplo 2: LIBRAS: FLOR EU-DAR MULHER BENÇÃO (verbo direcional) Português: “Eu dei a flor para a mamãe.”
Exemplo 3: LIBRAS: PORQUE ISTO (expressão facial de interrogação) Português: “Para que serve isto?”
Exemplo 4: LIBRAS: IDADE VOCÊ (expressão facial de interrogação) Português: “Quantos anos você tem?”

Há alguns casos de omissão de verbos na LIBRAS:

Exemplo 5: LIBRAS: CINEMA O-P-I-A-N-O MUITO-BOM Português: “O filme O Piano é maravilhoso!”
Exemplo 6: LIBRAS: PORQUE PESSOA FELIZ-PULAR Português: “… porque as pessoas estão felizes demais!”
Exemplo 7: LIBRAS: PASSADO COMEÇAR FÉRIAS EU VONTADE… DEPRESSA VIAJAR Português: “Quando chegaram as férias, eu fiquei ansiosa para viajar.” Observação: na estruturação da LIBRAS observa-se que a mesma possui regras próprias; não são usados artigos, preposições, conjunções, porque esses conectivos estão incorporados ao sinal.

Sistema pronominal

a) Pronomes pessoais: a LIBRAS possui um sistema pronominal para representar as seguintes pessoas do discurso:

 No singular, o sinal para todas as pessoas é o mesmo CM[G], o que diferencia uma das outras é a orientação das mãos;
 Dual: a mão ficará com o formato de dois, CM [K] ou [V];
 Trial: a mão assume o formato de três, CM [W];
 Quatrial: o formato será de quatro, CM [54];
 Plural: há dois sinais: Sinal composto (pessoa do discurso no singular + grupo). Configuração da mão [Gd] fazendo um círculo (nós).

 

Quando se quer falar de uma terceira pessoa presente, mas deseja-se ser discreto, por educação, não se aponta para essa pessoa diretamente. Ou se faz um sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça em direção à pessoa mencionada ou aponta-se para a palma da mão (voltada para a Direção onde se encontra a pessoa referida).

b) Pronomes demonstrativos: na LIBRAS os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar tem o mesmo sinal, sendo diferenciados no contexto. Configuração de mão [G]

ESTE / AQUI – olhar para o lugar apontado, perto da 1ª pessoa.
ESSE / AÍ – olhar para o lugar apontado, perto da 2ª pessoa.
AQUELE / LÁ – olhar para o lugar distante apontado.

Tipos de referentes:

– Referentes presentes. Ex.: EU, VOCÊ, ELE…
– Referentes ausentes com localizações reais. Ex.: RECIFE, PREFEITURA, EUROPA…
– Referentes ausentes sem localização.

c) Pronomes possessivos: também não possuem marca para gênero e estão relacionados às pessoas do discurso e não à coisa possuída, como acontece em Português:

EU: MEU IRMÃO ( CM [5] batendo no peito do emissor)
VOCÊ: TEU AMIGO ( CM [K] movimento em direção à pessoa referida)
ELE / ELA: SEU NAMORADO (CM [K] movimento em direção à pessoa referida)

Observação: para os possessivos no dual, trial, quadrial e plural (grupo) são usados os pronomes pessoais correspondentes.

d) Pronomes interrogativos: os pronomes interrogativos QUE, QUEM e ONDE se caracterizam, essencialmente, pela expressão facial interrogativa feita simultaneamente ao pronome.

QUE / QUEM: usados no início da frase. (CM [bO].
QUEM: com o sentido de quem é e quem é são mais usados no final da frase.
QUANDO: a pergunta com quando está relacionada a um advérbio de tempo (hoje, amanhã, ontem) ou a um dia de semana específico.

Ex.: ELE VIAJAR RIO QUANDO-PASSADO (interrogação)
ELE VIAJAR RIO QUANDO-FUTURO (interrogação
EU CONVIDAR VOCÊ VIR MINHA ESCOLA. VOCÊ PODER D-I-A (interrogação)

QUE-HORAS? / QUANTAS-HORAS?

Para se referir às horas aponta-se para o pulso e relaciona-se o numeral para a quantidade desejada.

Ex.: CURSO COMEÇAR QUE-HORAS AQUI (interrogação)
Resposta: CURSO COMEÇAR HORAS DUAS.

Para se referir a tempo gasto na realização de uma atividade, sinalizase um círculo ao redor do rosto, seguido da expressão facial adequada. Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUANTAS-HORAS (interrogação)

POR QUE / PORQUE Como não há diferença entre ambos, o contexto é que sugere, através das expressões faciais e corporais, quando estão sendo usados em frases interrogativas ou explicativas.

e) Pronomes indefinidos:

NINGUÉM (igual ao sinal acabar): usado somente para pessoa;
NINGUÉM / NADA (1) (mãos abertas esfregando-se uma na outra): é usado para pessoas e coisas; NENHUM (1) / NADA (2) (CM [F] balança-se a mão) é usado para pessoas e coisas e pode ter o sentido de “não ter”; NENHUM (2) / POUQUINHO (CM [F] palma da mão virada para cima): é um reforço para a frase negativa e pode vir após NADA.

Tipos de verbos

Verbos direcionais
Verbos não direcionais

a) Verbos direcionais – verbos que possuem marca de concordância. A direção do movimento, marca no ponto inicial o sujeito e no final o objeto.

Ex.:TROCAR

TROCAR-SOCO
TROCAR-BEIJO
TROCAR-TIRO
TROCAR-COPO
TROCAR-CADEIRA

b) Verbos não direcionais: verbos que não possuem marca de concordância. Quando se faz uma frase é como se eles ficassem no infinitivo. Os verbos não direcionais aparecem em duas subclasses:

– Ancorados no corpo: são verbos realizados com contato muito próximo do corpo. Podem ser verbos de estado cognitivo, emotivo ou experienciais, como: pensar, entender, gostar, duvidar, odiar, saber; e verbos de ação, como: conversar, pagar, falar.

– Verbos que incorporam o objeto: quando o verbo incorpora o objeto, alguns parâmetros modificam-se para especificar as informações.

Ex.: COMER
COMER-MAÇÃ
COMER-BOLACHA
COMER-PIPOCA
TOMAR /BEBER
TOMAR-CAFÉ
TOMAR-ÁGUA
BEBER-PINGA / BEBER-CACHAÇA
CORTAR-TESOURA
CORTAR-CABELO
CORTAR-UNHA
CORTAR-PAPEL
CORTAR-FACA
CORTAR-CORPO

– “operar” CORTAR-FATIA

Tipos de frases

Para produzirmos uma frase em LIBRAS nas formas afirmativa, exclamativa, interrogativa, negativa ou imperativa é necessário estarmos atentos às expressões faciais e corporais a serem realizadas, simultaneamente, às mesmas.

Afirmativa:
a expressão facial é neutra.
-Interrogativa:
sobrancelhas franzidas e um ligeiro movimento da cabeça, inclinando-se para cima.
-Exclamativa:
sobrancelhas levantadas e um ligeiro movimento da cabeça inclinando-se para cima e para baixo.
-Forma negativa:
a negação pode ser feita através de três processos: a) incorporando-se um sinal de negação diferente do afirmativo:

-Imperativa: Saia! Cala a boca! Vá embora!

Noções temporais

Quando se deseja especificar as noções temporais, acrescentamos sinais que informam o tempo presente, passado ou futuro, dentro da sintaxe da LIBRAS.

Ex.: Presente
(agora / hoje)
LIBRAS – HOJE EU-IR CASA MULHER^BENÇÃO MEU
Português – “Hoje vou à casa da minha mãe”
LIBRAS – AGORA EU EMBORA
Português – “Eu vou embora agora.”

Passado

(Ontem / Há muito tempo / Passou / Já)
LIBRAS – DELE HOMEM^IRMÃO VENDER CARRO JÁ
Português – “O irmão dele vendeu o carro.”
LIBRAS- ONTEM EU-IR CASA MEU MULHER^BENÇÃO
Português- “Ontem, eu fui à casa da minha mãe.”
LIBRAS – TERÇA-FEIRA PASSADO EU-IR RESTAURANTE COMER^NOITE
Português- “Na terça-feira passada eu jantei no restaurante.”

Futuro

(amanhã / futuro / depois / próximo)
LIBRAS – EU ESTUDAR AMANHÃ
Português – “Amanhã irei estudar”
LIBRAS – PRÓXIMA QUINTA-FEIRA EU ESTUDAR
Português – “Estudarei na quinta-feira que vem”
LIBRAS – DEPOIS EU ESTUDAR
Português – “Depois irei estudar”
LIBRAS- FUTURO EU ESTUDAR FACULDADE MATEMÁTICA
Português – “Um dia farei faculdade de matemática”

Classificadores (Cl)

Um classificador (Cl) é uma forma que estabelece um tipo de concordância em uma língua. Na LIBRAS, os classificadores são formas representadas por configurações de mão que, substituindo o nome que as precedem, podem vir junto de verbos de movimento e de localização para classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação do verbo.

Portanto, os classificadores na LIBRAS são marcadores de concordância de gênero para pessoas, animais ou coisas. São muito importantes, pois ajudam construir sua estrutura sintática, através de recursos corporais que possibilitam relações gramaticais altamente abstratas.

Muitos classificadores são icônicos em seu significado pela semelhança entre a sua forma ou tamanho do objeto a ser referido. Às vezes o Cl refere-se ao objeto ou ser como um todo, outras refere-se apenas a uma parte ou característica do ser. (FERREIRA BRITO, 1995)

Ex.: LIBRAS – CARRO BATER POSTE

Cl Verbo em Cl movimento Português – “O carro bateu no poste.”

LIBRAS – PRATOS-EMPILHADOS Cl Verbo em localização Português – “Os pratos estão empilhados”

b) Quanto ao modo de segurar certos objetos:

Cl: [F] – objetos pequenos e finos (botões, moedas, palitos de fósforos, asa de xícara);
Cl: [H] – segurar cigarro;
Cl: [C] – copos e vasos;
Cl: [As] – buque de flores, faca, carimbo, sacola, mala, guarda-chuva, caneca ou chopp, pedaço de pau, etc. (funciona como parte do verbo e representa o objeto que se moveu ou é localizado).

Role-Play

Este é um recurso muito usado na LIBRAS quando os surdos estão desenvolvendo a narrativa. O sinalizador coloca-se na posição dos personagens referidos na narrativa, alternando com eles em situações de diálogo ou ação.

FORMAÇÃO DE PALAVRAS

Como já vimos anteriormente, na LIBRAS os sinais são formados a partir de parâmetros principais e secundários e através de alguns componentes não-manuais.
Há, também, uma série de outros sinais que são formados por processos de derivação, composição ou empréstimos do português. Vejamos alguns exemplos:

Sinais compostos

Da mesma forma que no português, teremos compostos de palavras no qual um elemento será o principal- o núcleo – e um elemento o especificadoro adjunto. É interessante observar, que na LIBRAS a estrutura não será apenas binária e, neste caso, teremos dois ou mais elementos especificadores de uma palavra núcleo.

Ex.: Simples: CAFÉ, AMIGO, CONHECER

Composto: “zebra”: CAVALO^LISTRAS
“açougueiro”: HOMEM^VENDER^CARNE
“faqueiro”: CAIXA^GUARDAR^COLHER^FACA^GARFO

Em alguns casos, quando ao sinal acrescenta-se outro, o mesmo passa a ter outro significado.

Ex.: pílula

PILULA^EVITAR^GRÁVIDA “pílula anticoncepcional”
PÍLULA^CALMA “calmante”
PÍLULA^DOR DE CABEÇA “analgésico”

médico

MÉDIC@^SEXO “ginecologista‟
MÉDIC@^OLHO “oftalmologista”
MÉDIC@^CRIANÇA “pediatra”
MÉDIC@^CORAÇÃO “cardiologista”

a) Sinais compostos com formatos: há execução de um sinal convencional com acréscimo de outro sinal na “forma” do objeto que se quer especificar.

Ex.:

retângulo

RETÂNGULO^TELEGRAMA “bilhete de telegrama” RETÂNGULO^
CONSTRUÇÃO “tijolo”
RETÂNGULO^DINHEIRO “cédula”
RETÂNGULO^CARTA “envelope”
RETÂNGULO^ÔNIBUS “passagem de ônibus”

b) Sinais compostos por categorias: para classificar um sinal por categoria ou por grupo, acrescentamos à palavra-núcleo o sinal VARIADOS.

Ex.:

MAÇÃ^VARIADOS “frutas”
CARRO^VARIADOS “meios de transportes”
COR^VARIADOS “colorido”
COMER^VARIADOS „alimentos”
LEÃO^VARIADOS “animais”
Gênero (feminino / masculino)
É interessante observar que não há flexão de gênero em LIBRAS, os substantivos e adjetivos são, em geral, não marcados.

Entretanto, quando se quer explicitar substantivos dentro de determinados contextos, a indicação de sexo é feita pospondo-se o sinal “HOMEM/MULHER”, indistintamente, para pessoas e animais, ou a indicação é obtida através de sinais diferentes para um e para outro sexo:

Exemplos:

HOMEM “homem”
MULHER “mulher”
HOMEM^VELHO “vovô”
MULHER^VELHA “vovó”

Adjetivos, artigos, pronomes e numerais não apresentam flexão de gênero, apresentando-se em forma neutra. Esta forma neutra está representada pelo símbolo @. Ex.: AMIG@, FRI@, MUIT@, CACHORR@, SOLTEIR@

Adjetivos

São sinais que se apresentam na forma neutra, não havendo, portanto, nem marca para gênero (masculino e feminino) e nem para número(singular e plural). Geralmente, aparecem na frase após o substantivo que qualificam.

Ex.: GATO PEQUENO COR BRANCO ESPERTO
“O gato é pequeno, branco e esperto.”

Numerais e quantificação

A LIBRAS apresenta diferentes formas de sinalizar os numerais, a depender da situação:

– cardinais: até 10, representações diferentes para quantidades e cardinais; a partir de 11 são idênticos.
– ordinais: do primeiro até o nono tem a mesma forma dos cardinais, mas os ordinais possuem movimento enquanto que os cardinais não possuem. Os ordinais do 1 º ao 4 º têm movimentos para cima e para baixo e os ordinais do 5 º até o 9 º têm movimentos para os lados. A partir do numeral dez não há mais diferenças.
– valores monetários, pesos e medidas: para representar valores monetários de 1 até 9, usa-se o sinal do numeral correspondente ao valor, incorporando a este o sinal VÍRGULA ou, também, após o sinal do numeral correspondente acrescenta-se o sinal de R-S “ real” . Para os valores de 1.000 até 9.000 usa – se a incorporação do sinal VÍRGULA ou PONTO.

Formas de plural

Há plural na LIBRAS no uso repetido de sinais ou indicando a quantidade.

Ex.: MUITO-ANO (quantidade), MUITO-ANO(duração),DOIS-DIA, TRÊS-DIA, QUATRO-DIA, TODO-DIA,DOIS-SEMANA, TRÊS-SEMANA, DOIS-MÊS, …

Classificadores possuem plural.
Ex.: “Pessoas em fila.”
“As pessoas sentam em círculo.”

Intensificadores e advérbios de modo

Utiliza-se a repetição exagerada para intensificar o significado do sinal.

Ex.:

COMER – COMER – COMER “Comer sem parar.”
FUMAR – FUMAR – FUMAR “Fumar sem parar.”
FALAR – FALAR – FALAR “Falar sem parar.”

– Advérbios de modo:

MUITO: utilizado como intensificador em LIBRAS e expresso através das expressões facial e corporal ou de uma modificação no movimento do sinal.

RÁPIDO: para estabelecer um modo rápido de se realizar a ação, há uma repetição do sinal da ação e a incorporação de um movimento acelerado.

Advérbios de tempo: (frequência)

N-U-N-C-A: sinal soletrado;
FREQUENTE e FREQUENTEMENTE: mesma configuração de mão [L], mas para a segunda ideia o sinal é feito repetidamente.
SEMPRE “continuar” e MESMO: mesma configuração de mão [V], mas no primeiro há um movimento para frente do emissor.
Polissemia

Há sinais que denotam vários significados apesar de apresentarem uma única forma na LIBRAS.

 

Gíria

É utilizada em LIBRAS, porém não pode ser traduzida para o português, pois o sinal a ser utilizado varia de acordo com o contexto em que ocorre.

Ex.:

Não tem dono; fico com ele.
Conseguir namorado. (rápido)
Problema meu.
Eu progredi.
Estou com sono, é o violino tocando (desinteresse total com relação à palestra, aulas, etc.)
Que estranho, esquisito, não sabia disto.
Simples, vulgar.
Vou ignorar isto, não farei isto, preguiça de fazer.
Terei que aguentar, paciência.
Alfabeto Manual

É a soletração de letras com as mãos. É muito aconselhável soletrar devagar, formando as palavras com nitidez. Entre as palavras soletradas, é melhor fazer uma pausa curta ou mover a mão direita para o lado esquerdo, como se estivesse empurrando a palavra já soletrada para o lado. Normalmente o alfabeto manual é utilizado para soletrar os nomes de pessoas, de lugares, de rótulos, etc., e para os vocábulos não existentes na língua de sinais. Ex.(página seguinte).

Empréstimos da língua portuguesa.

Alguns sinais são realizados através da soletração, uso das iniciais das palavras, cópia do sinal gráfico pela influência da Língua Portuguesa escrita. Estes empréstimos sofrem mudanças formativas e acabam tornando-se parte do vocabulário da LIBRAS.

N-U-N-C-A “nunca”
B-R “bar”, A-L “azul”
MATEMÁTICA
MARROM, ROXO, CINZA.

Esta descrição sucinta da LIBRAS não é suficiente para conhecê-la na sua estrutura lingüística como um todo e, muito menos, em suas especificidades enquanto língua de uma comunidade. No entanto, parece ser um primeiro passo para que saibamos que a LIBRAS é uma língua natural com toda complexidade dos sistemas lingüísticos que servem à comunicação, socialização e ao suporte do pensamento de muitos grupos sociais. Mesmo a despeito de mais de um século de proibição de seu uso nas escolas de surdos, preconceito e marginalização por parte da sociedade como um todo, as línguas de sinais resistiram, demonstrando a necessidade essencial de sua utilização entre as pessoas surdas.

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